Parashat Terumah

Beit HaDerekh

Parashat Terumah  ( ‘contribuição’ ou ‘oferta ou presente de coração’.) תרומה

Ex. 25:1-27:19,
1 Rs. 5:12 -6:13
Mc 3:1-4:41

Mensagem da Parashat

A Porção desta semana nos conduz ao Tabernáculo (Mishcan).

A maior parte desta Porção contém descrições detalhadas dos muitos utensílios usados.

D’us dedica vários versículos a cada componente, descrevendo suas medidas exatas e o aspecto, para que Moisés entendesse exatamente como construir cada utensílio.

Esta porção que parece conter apenas uma lista de diversos objetos, poderia ter uma aparência um tanto monótona. Entretanto, logo no início nos defrontamos com uma estranha discrepância.

Ex 25: 10  D’us ordena a Moisés: “…farão uma Arca” usando a forma plural, como se falando a um grupo de pessoas que participarão na construção do Mishcan.

Certamente esperávamos que as descrições seguintes, seguisse a mesma estrutura gramatical no plural. Entretanto, não é o caso.

Na verdade, a Arca é a única que encontramos sendo usada da forma plural; todos os outros itens são descritos no singular Também farás um propiciatório de ouro puro Êxodo 25:17  parecendo indicar uma única pessoa.

Segundo os sábios, cada utensílio e sua descrição continham numerosas mensagens e temas para a nação judaica. PAG 13 -2 A Arca Sagrada, apontava para à Torá e seu estudo; isso não é surpresa, pois a Arca continha o verdadeiro Rolo da Torá e as Tábuas c/10 Mandamentos.

Ramban esclarece que a forma plural é usada aqui para indicar que seu estudo deve ter a participação de todos sem exceção.

Se hoje por algum motivo você se encontra na escuridão ou no deserto, D’us nos dá o poder de transformar nosso deserto em um santuário. 

Se estamos deprimidos por algum problema sem enxergar uma solução, e nos sentimos como se estivéssemos despojados da Sua presença, devemos lembrar que mesmo em um deserto é possível construir um Mishcan.

Mesmo quando sentimos que estamos definhando num vazio espiritual devemos usar nosso potencial para reabilitar e fortalecer nosso santuário interior, atraindo a Presença Divina.

Na Torá nada é por acaso, mesmo quando o seu sentido nos parece oculto. Todo detalhe é importante e em tudo há um propósito.

Êxodo 25:1-8 Então falou o SENHOR a Moisés, dizendo:
Fala aos filhos de Israel, que me tragam uma oferta alçada; de todo o homem cujo coração se mover voluntariamente, dele tomareis a minha oferta alçada.E esta é a oferta alçada que recebereis deles: ouro, e prata, e cobre,….
8.E me farão um santuário, e habitarei no meio deles.

Parece-me que para esse pedido do Eterno, a Parashá desta semana é a resposta. “Façam para mim um santuário para que eu habite no meio deles”

ח  וְעָשׂוּ לִי, מִקְדָּשׁ; וְשָׁכַנְתִּי, בְּתוֹכָם. 8 And let them make Me a sanctuary, that I may dwell among them.

Esta é a primeira vez na Torá que ouvimos o verbo sh-kh-n (Shakhent), que significa “habitar“.

Vou detalhar este versículo um pouco mais na frente.

A própria ideia de um Mishkan, um santuário, um “lar” físico para a “glória de D’us” é profundamente paradoxal. D’us está além do espaço.

Como o rei Salomão disse na inauguração do primeiro templo:

 2 Crônicas 6:18 Mas, na verdade, habitará Deus com os homens na terra? Eis que os céus, e o céu dos céus, não te podem conter, quanto mais esta casa que tenho edificado?

Ou, como Isaías: Isaías 66:1 Assim diz o SENHOR: O céu é o meu trono, e a terra o escabelo dos meus pés; que casa me edificaríeis vós? E qual seria o lugar do meu descanso?

Não só parece impossível construir um lar para D’us como deve ser desnecessário. O D’us de todos os lugares pode ser acessado em qualquer lugar,

Tanto no poço mais profundo quanto na montanha mais alta, na favela da cidade ou em um palácio revestido de ouro.

A resposta, fundamental, é que D’us não mora em edifícios. Ele vive não em estruturas de pedra, mas no coração humano. O que os sábios apontaram foi que, D’us diz:

“Construam-me um santuário para que eu possa habitar dentro deles” esta é a tradução no original. Não para que eu possa habitar nele ou no meio deles”.

Por que então D’us ordenou ao povo que fizesse um santuário?

Esta é a resposta que foi dada após o pecado do bezerro de ouro.

O povo fez o bezerro depois que Moisés esteve na montanha por quarenta dias para receber a Torá.

Enquanto Moisés estava no meio deles, o povo sabia que ele se comunicava com D’us, e D’us com ele, e, portanto, D’us estava acessível, próximo.

Mas quando ele esteve ausente por quase seis semanas, eles entraram em pânico.

Quem mais poderia preencher a lacuna entre o povo e D’us?

Como eles poderiam ouvir as instruções de D’us? Quem seria o intermediário para fazer contato com a presença divina?

Foi por isso que D’us disse a Moisés: “Construam-me um santuário para que eu habite neles”. A palavra-chave aqui é o verbo sh-kh-n, (Sharrent), habitar, que acabou se tornando uma palavra-chave do próprio judaísmo.

Dela veio a palavra Mishkan, que significa santuário, e Shekhinah, a presença divina.(Por favor não digam nunca Shekiná é Sherriná)

O que é central para o seu significado é a ideia de proximidade. O substantivo Shakhent  significa literalmente a pessoa que mora ao lado.

D’us como Aquele que está próximo, e a ousada ideia de D’us como um vizinho muito próximo.

O que os israelitas precisavam e o que D’us lhes deu era uma maneira de se sentirem tão perto de D’us quanto de seu vizinho mais próximo.

D’us falou com Abraão, Isaque e Jacó, com Sara, Rebeca, Raquel e Léia intimamente, como um amigo. Ele disse a Abraão e Sara que eles teriam um filho.

Ele explicou a Rebecca por que ela estava sentindo uma dor tão aguda na gravidez. Ele apareceu para Jacob em momentos importantes de sua vida, dizendo-lhe para ele não temer.

Não foi isso que os israelitas experimentaram até agora. Eles viram D’us trazendo pragas contra os egípcios. Eles O viram dividir o mar. Eles O viram enviar maná do céu e água da rocha.

Eles ouviram sua voz no monte Sinai e a acharam quase insuportável. Eles disseram a Moisés: “Fale conosco e ouviremos. Mas D’us não fale conosco ou nós morreremos.”

D’us havia aparecido para eles com uma presença avassaladora, uma força irresistível, uma luz tão brilhante que olhar para ela cegava e uma voz tão forte que fazia você ficar surdo.

Eles precisavam de um intermediário. Portanto, para D’us ser acessível, a todos os membros de uma grande nação, foi um desafio, por assim dizer, para o próprio D’us.

Moisés foi este intermediário temporário que apontava para o intermediário perene : Yeshua. Veja:Ex 26:31/Hb 10:19/Mc15:38

Yeshua era a cortina que foi rasgada para que tivéssemos acesso ao Santo dos Santos, para que pudéssemos chegar na presença do Eterno.Ele se tornou o único intermediário entre os homens e D’us.

Como fazemos para sentir a presença de D’us? Não é difícil fazê-lo no topo do Monte Everest ou Sinai. Você não precisa ser religioso, para admirar o sublime.

Mas como sentir a presença de D’us na vida cotidiana? Não do alto do Sinai, mas da planície lá em baixo? Não quando está rodeado de trovões e raios como na grande revelação, mas quando é apenas um dia de sol comum?

Esse é o segredo transformador da vida embutido nesta Parashá, Terumah. Que significa “uma contribuição”.

Êxodo 25:2 Fala aos filhos de Israel, que me tragam uma oferta alçada; de todo o homem cujo coração se mover voluntariamente, dele tomareis a minha oferta alçada.

A melhor maneira de encontrar D’us é doar. Isso seria o ponto de virada na história do povo de D’us.

Até aquele momento, os israelitas haviam recebido os milagres e as libertações de D’us. Ele os levou da escravidão para a liberdade e realizou vários milagres por eles.

Só havia uma coisa que D’us ainda não havia feito: dar aos israelitas a chance de devolver algo a D’us. A própria ideia parece absurda.

Como podemos sendo criaturas de D’us, retribuir ao D’us todo poderoso que nos criou? Tudo o que temos é dele. Como David disse:

1 Crônicas 29:13-16.E riquezas e glória vêm de diante de ti, e tu dominas sobre tudo, e na tua mão há força e poder; e na tua mão está o engrandecer e o dar força a tudo.Agora, pois, ó Deus nosso, graças te damos, e louvamos o nome da tua glória.Porque quem sou eu, e quem é o meu povo, para que pudéssemos oferecer voluntariamente coisas semelhantes? Porque tudo vem de ti, e do que é teu to damos.Porque somos estrangeiros diante de ti, e peregrinos como todos os nossos pais; como a sombra são os nossos dias sobre a terra, e sem ti não há esperança.Senhor, nosso Deus, toda esta abundância, que preparamos, para te edificar uma casa ao teu santo nome, vem da tua mão, e é toda tua.

Essa é a lógica do Mishkan. O maior presente de D’us para nós é a capacidade de darmos a Ele. A ideia está repleta de riscos. A ideia de que D’us pode estar precisando de ofertas está muito próxima do paganismo e da heresia.

Contudo, conhecendo o risco, D’us permitiu-se ser persuadido por Moisés a fazer Seu espírito repousar dentro do acampamento e permitir que o povo devolvesse algo a D’us.

No coração da ideia do santuário está o que Lewis descreveu lindamente como o trabalho de gratidão. Seu estudo , The Gift,  analisa o papel de dar e receber ofertas em momentos críticos da vida.

Ele cita a história talmúdica de um homem cuja filha estava prestes a se casar, mas alguém diz que ela não sobreviveria até o fim do dia.

Pela manhã, ele visitou sua filha e viu que ela ainda estava viva.

Quando ela pendurou o chapéu após o casamento, o alfinete perfurou a cabeça de uma serpente que estava pronta a dar o bote.

Ela contou ao pai: “Um homem pobre chegou à nossa porta ontem”.

Todos estavam tão ocupados com os preparativos do casamento que não tiveram tempo atende-lo. “Então, peguei parte dos meus presentes e entreguei a ele”.

Foi esse ato de generosidade que causou a sua libertação milagrosa. (Talmud: Shabat 156b).

A construção do santuário foi de fundamental importância, porque deu aos israelitas a chance de retribuir a D’us. As leis judaicas posteriores reconheceram que dar é parte integrante da dignidade humana.

O Mishkan tornou-se o lar da presença Divina porque D’us especificou que fosse construído apenas a partir de contribuições voluntárias.

A doação cria uma sociedade amorosa, permitindo que cada um de nós faça uma contribuição para o bem comum.

É por isso que a construção do santuário foi a cura para o pecado do bezerro de ouro. Um povo que apenas recebeu, mas não podia dar, ficaria preso no seu próprio egoísmo.

D’us permitiu que as pessoas se aproximassem d’Ele, e Ele se aproximou do povo, dando-lhes a chance de doar.

É por isso que uma sociedade baseada em direitos, não dando importância a doação aos outros e a D’us, sempre acaba dando errado.

É por isso que o presente mais importante que os pais podem dar a um filho é ensina-lo a retribuir.

A etimologia da palavra Terumah sugere isso. Significa não apenas uma contribuição: Sobrevivemos pelo que nos é dado, mas alcançamos dignidade pelo que damos aos outros.

O Mishkan foi a primeira coisa que os israelitas fizeram no deserto, e marca um ponto de virada na narrativa do Êxodo. Até agora D’us havia feito todo o trabalho. Ele atacou o Egito com pragas. Ele levou o povo à liberdade.

Ele dividiu o mar e os fez atravessar em terra seca. Ele lhes deu comida do céu e água da rocha. E, o povo não apreciava. Eles eram ingratos. Eles reclamavam. Eles murmuravam. (Aquele que eu mais fiz por ele…)

Agora, D’us instruiu Moisés a levar o povo a uma inversão de papéis. Em vez de D’us fazer coisas por eles, ordenou que eles fizessem algo por Ele.

Isso não era para D’us. D’us não precisa de um santuário, de um lar na terra, pois D’us está em todos os lugares e tudo pertence a Ele.

D’us deu aos israelitas a chance de fazer algo com suas próprias mãos, algo que eles valorizariam porque, coletivamente o fizeram.

Todo mundo que quisesse poderia contribuir, independentemente do que tivesse: “fios de ouro, prata ou bronze, tecido azul, roxo ou

Vermelho, linho fino, pelo de cabra, peles de carneiro tingidas, couro fino, madeira de acácia, óleo para a lâmpada, bálsamo, óleo para unção e para o incenso perfumado, joias para o peitoral e assim por diante”.

Alguns que não possuíam bens doaram o seu trabalho e suas habilidades. Todos tiveram a oportunidade de participar todas as pessoas como o povo de D’us, não apenas uma elite.

Pela primeira vez, D’us estava pedindo a eles que não seguissem a nuvem e o fogo pelo deserto, ou obedecessem as leis, mas que se tornassem construtores e criadores.

E porque envolvia trabalho, energia e tempo, eles investiram algo de si, individual e coletivo. Valorizamos o que criamos. O esforço que colocamos em algo não muda apenas o fato. Isso muda a nós.

O Talmud: Megilla 31a. diz: “onde quer que você encontre a grandeza de D’us, lá encontrará a sua humildade.” D’us estava dando aos israelitas a dignidade de poder dizer: “Ajudei a construir uma casa para D’us.”

O Criador do universo estava dando ao Seu povo a chance de se tornarem criadores também – não apenas de algo físico e secular, mas de algo profundamente espiritual e sagrado.

D’us estava dando a eles a chance de se tornarem “Parceiros na obra da criação”  Talmud: Shabat 10a, 11b., a mais alta caracterização já dada sobre a condição humana.

Esse é o presente que transforma o recebedor em um doador dando-lhe dignidade. Isso mostra que acreditamos que eles são capazes de grandes coisas.

Não temos mais um santuário físico, mas temos o Shabat, o “santuário no tempo”

Recentemente, uma figura importante da Igreja Cristã passou o Shabat  na maior Sinagoga de SP. Ele esteve presente por 25 horas, do Kabbalat Shabbat a Havdallah.  (do hebraico הַבְדָּלָה) que é uma cerimônia religiosa judaica que marca o final do Shabat e dos dias sagrados .

Ele orou, comeu e cantou com os judeus. E ai perguntaram a ele “Por que você está fazendo isso?”  Ele respondeu:

“Um dos maiores presentes que vocês judeus nos deram como cristãos foi o sábado. Nós estamos perdendo isso mas vocês estão mantendo isso. E eu quero aprender com vocês como fazer  isso.

A resposta é simples. Claro que foi D’us quem, no início dos tempos, santificou o sétimo dia. Mas foram os sábios que, fazendo “uma cerca em torno da lei”, acrescentaram costumes e regulamentos para proteger e preservar o espírito do Shabat .

Principalmente nas famílias ensinando-as a transmitirem por gerações.

O próprio ato de dar flui ou leva ao entendimento de que o que damos faz parte do que nos foi dado.

É uma maneira de agradecer, um ato de gratidão. Essa é a diferença na mente humana entre a presença de D’us e a ausência de D’us.

Se D’us está presente, significa que o que temos é Dele. Ele criou o universo. Ele nos criou. Ele nos deu vida. Ele soprou em nós o próprio ar que respiramos.

Ao nosso redor está a majestade, a plenitude, da generosidade de D’us: a luz do sol, o ouro da pedra, o verde das folhas, o canto dos pássaros.

É isso que sentimos ao ler os grandes salmos da criação que lemos todos os dias. O mundo é a galeria de arte de D’us e Suas obras de arte estão por toda parte.

Como a vida é um dom, deveríamos reconhecer isso retribuindo.

Mas se a vida não é um dom, porque não há um Doador da vida, e o universo passou a existir apenas por causa de uma explosão,

Se não há nada no corpo humano criado pelo Eterno, mas uma série de letras no código genético que são apenas meios egoístas de autopreservação,

E se nossas aspirações espirituais são meras ilusões, então é difícil sentir gratidão pelo Dom da vida. Não há presente se não houver doador.

Se há apenas uma série de acidentes sem sentido, não há gratidão, pois e é difícil sentir gratidão por um acidente.

A Torá, portanto, nos diz algo simples e prático. Doe e você verá a vida como um presente. Você não precisa provar que D’us existe. Tudo que você precisa é agradecer sem cessar – e o resto seguirá em paz.

Foi assim que D’us chegou perto dos israelitas através da construção do santuário. Não era a qualidade da madeira, metais e cortinas. Não era o brilho de joias no peitoral do Sumo Sacerdote.

Não era a beleza da arquitetura ou o aroma dos sacrifícios.

Foi o fato de que foi construído a partir das doações de “todo mundo cujo coração lhes pede que deem” (Êx 25: 2).

Onde as pessoas dão voluntariamente umas às outras, é aí que a presença divina repousa.

Daí a palavra especial que dá nome à Parashá desta semana: Terumah.

Traduzi-la como “uma contribuição”, uma oferta, está correto, mas na verdade tem um significado sutilmente diferente que não existe em português ou inglês. Significa literalmente “algo que você levanta do fundo do seu coração”, dedicando a uma causa sagrada.

A melhor maneira de escalar as alturas espirituais é simplesmente agradecer pelo fato de você tanto receber. D’us não vive em uma casa de pedra. Ele vive no coração daqueles que doam.

A Parashá Terumah descreve a construção do Tabernáculo, a primeira casa de culto coletiva na história de Israel. O primeiro Tabernáculo mas não o último; pois acabou sendo sucedido pelo templo em Jerusalém.

Quero focar em um momento da história que representa a espiritualidade judaica em seu ponto mais baixo e mais alto: o momento em que o templo foi destruído.

É difícil entender a profundidade da crise na qual a destruição do Primeiro Templo mergulhou o povo judeu. Sua própria existência era baseada em um relacionamento com D’us simbolizado pela adoração que acontecia diariamente em Jerusalém.

Com a conquista babilônica em 586 AC, os judeus perderam não apenas sua terra e soberania. Ao perder o templo, foi como se tivessem perdido a própria esperança.

Pois a esperança deles estava em D’us, e como eles poderiam se voltar para D’us se o próprio lugar onde O serviam estava em ruínas?

Um documento deixou um registro vívido do humor dos judeus na época, um dos mais famosos salmos:

Salmos 137:1-9  Junto aos rios da Babilônia, ali nos assentamos e choramos, quando nos lembramos de Sião…..Pois lá aqueles que nos levaram cativos nos pediam uma canção; e os que nos destruíram, que os alegrássemos, dizendo: Cantai-nos uma das canções de Sião.Como cantaremos a canção do Senhor em terra estranha? ….Feliz aquele que te retribuir o pago que tu nos pagaste a nós.

Foi então que uma resposta começou a tomar forma. O templo não estava mais em pé, mas sua memória permanecia, e essa memória era forte o suficiente para reunir o povo num culto coletivo.

No exílio, na Babilônia, os judeus começaram a se reunir para expor a Torá, articular uma esperança coletiva de retorno e relembrar o Templo e o seu serviço.

O profeta Ezequiel foi um dos que moldou uma visão de retorno e restauração, e é a ele que devemos a primeira referência a uma instituição radicalmente nova que acabou se tornando conhecida como Beit Knesset, a sinagoga, literalmente casa de reunião:

Ezequiel 11:16,17 Portanto, dize: Assim diz o Senhor DEUS: Ainda que os lancei para longe entre os gentios, e ainda que os espalhei pelas terras, todavia lhes serei como um pequeno santuário, nas terras para onde forem.

Portanto, dize: Assim diz o Senhor DEUS: Hei de ajuntar-vos do meio dos povos, e vos recolherei das terras para onde fostes lançados, e vos darei a terra de Israel.

O santuário central havia sido destruído, mas uma miniatura permaneceu. O próprio Eterno!

A sinagoga é um dos exemplos mais notáveis ​​de “um despertar de baixo”. Nasceu não através de palavras ditas por D’us a Israel, mas por palavras ditas por Israel a D’us.

Não há nenhuma sinagoga na Bíblia (Tanah), nenhum comando para construir casas como locais de oração.

Pelo contrário, na medida em que a Torá fala de uma “casa de D’us”, ela se refere a um santuário central, um foco coletivo para a adoração do povo como um todo.

Tendemos a nós esquecer quão profundo era o conceito de uma sinagoga.

O professor Stern escreveu que “ao estabelecer a sinagoga, o judaísmo criou uma das maiores revoluções da história da religião e da sociedade”,

“Pois a sinagoga era um ambiente totalmente novo para o serviço divino, um tipo desconhecido em qualquer lugar anteriormente”.

Tornou-se, de acordo com Baron, a instituição através da qual a comunidade exílica “mudou completamente a ênfase do local de culto, o Santuário, para a reunião de fiéis, a congregação, reunida a qualquer momento e em qualquer lugar do mundo. ”

A sinagoga tornou-se a Jerusalém no exílio, o lar do coração do povo.

É a expressão máxima do monoteísmo – onde quer que nos reunamos para direcionar nossos corações para o céu, lá a Presença Divina pode ser encontrada, pois D’us está em toda parte.

De onde veio essa ideia, esta mudança? Ele não veio do templo, mas da instituição anterior descrita nesta Parashá: o Tabernáculo.

Sua essência era que era portátil, feito de vigas que podiam ser desmontadas e transportadas pelos levitas enquanto os israelitas viajavam pelo deserto.

O Tabernáculo, uma estrutura temporária, acabou tendo influência permanente, enquanto o Templo, destinado a ser permanente, provou ser temporário – pelo menos até que, seja reconstruído.

Mais significativa do que a estrutura física do Tabernáculo era sua estrutura metafísica. Era fácil demais entender o conceito de espaço sagrado em uma visão politeísta dos outros povos.

Os deuses eram meio humanos. Eles tinham lugares onde poderiam ser encontrados.

O monoteísmo rasgou essa ideia em suas raízes, no Salmo 139:

Para onde posso ir do Seu Espírito?

Para onde posso fugir da sua presença?

Se eu subir ao céu, você está aí;

Se eu arrumar minha cama nas profundezas, você estará lá.

O santuário não era mais um lugar em que a existência de D’us estivesse de alguma forma mais concentrada do que em outros lugares.

Pelo contrário, era um lugar cuja santidade teve o efeito de abrir corações para àquele que era adorado ali.

D’us existe em toda parte, mas não em toda parte sentimos a presença de D’us da mesma maneira.

A essência do “santo” é que é um lugar onde deixamos de lado todos os desejos humanos e entramos em um domínio totalmente reservado somente para D’us.

O conceito de Mishkan, o Tabernáculo, é que D’us vive no coração humano sempre que você se abre sem reservas para Ele, então sua localização física é irrelevante.

Assim, o caminho foi aberto, sete séculos depois, para a sinagoga: com a afirmação suprema que se D’us está em todo lugar, Ele pode ser alcançado em qualquer lugar.

Acho emocionante que a estrutura frágil do Mishcan descrita na hoje tenha se tornado a inspiração de uma instituição que, mais do que qualquer outra, manteve o povo de D’us vivo por quase dois mil anos de dispersão – esta foi a mais longa de todas as viagens pelo deserto. 

Shabat Shalom!!