Ashat Tetzaveh – Ordena

Beit HaDerekh

Parashat Tetzaveh   תְּצַוֶּה  
Ex. 27:20-30:10,
Ez.43:10-27,
Mc 5:1-6:56 (Parashat Zachor)

Shabat Zachor: O Shabat da Lembrança

Shabat antes da Festa Purim( Livro de , no qual celebramos a frustração do plano de Haman, o amalekita, para destruir o Povo Judeu, a Parashát da semana é complementada com a leitura de Zahor (Devarim 25:17-19) 

A Parashat Tetsavê começa com o mandamento diário dado a Aharon e seus filhos de abastecer a menorá no Mishcan com puro azeite de oliva.

D’us descreve a Moisés as vestes especiais que devem ser usadas pelos Sacerdotes(Cohanim) durante o serviço, tecidas e adornadas com materiais doados pelo povo.

Os Cohanim comuns envergavam quatro vestimentas especiais, ao passo que quatro vestes adicionais deveriam ser vestidas exclusivamente pelo Cohen Gadol.

Todos os Cohanim vestiam: 1) O ketonet – uma túnica longa de linho;

  • 2) michnasayim – calções de linho;
  • 3) mitznefet ou migba’at – um turbante de linho;
  • 4) aynet – uma longa faixa ao redor da cintura. Além disso, o Cohen Gadol (Sumo Sacerdote) vestia:
  • 5) O efod, uma veste similar a um avental, feita de lã azul, roxa e vermelha, linho e fios de ouro;
  • 6) o choshen – um peitoral contendo doze pedras preciosas inscritas com os nomes das doze tribos de Israel;
  • 7) me’il – uma capa de lã azul, com sinos de ouro e romãs decorativas na barra;
  • 8) o tsit – uma placa de ouro usada sobre a testa, com a inscrição “Sagrado para D’us”.

A porção da Torá então transfere sua atenção aos mandamentos de D’us referentes a inauguração ritual para o Mishcan recentemente construído, a ser realizada exclusivamente por Moisés por sete dias.

Tetsavê também inclui as instruções detalhadas de D’us para a iniciação de sete dias de Aharon e seus quatro filhos – Nadav, Avihu, Elazar e Itamar – no sacerdócio, e pela construção do Altar de Ouro sobre o qual o ketoret (incenso) era queimado.

Todas estas ordens são na verdade realizadas na porção final de Êxodo, Shemot, Parashat Pekudê.

A porção Tetzaveh, com sua descrição elaborada das “vestes sagradas” que os sacerdotes e o sumo sacerdote usavam “para glória e esplendor”, parece contrariar alguns valores fundamentais do judaísmo.

As vestes foram feitas para serem vistas. Elas foram destinadas a impressionar os olhos. Mas o habito judaico puxa mais para o ouvido do que para o olho.

A tradição hebraica enfatiza ouvir mais do que ver. Sua palavra-chave é Shema, que significa: ouvir e obedecer.

O verbo sh-m-a domina o livro de Devarim, onde aparece 92 vezes. A espiritualidade é ouvir muito mais do que olhar.

Essa é a profunda razão pela qual os judeus cobrem os olhos quando rezam o Shema Yisrael.

Fechamos o mundo da visão e focamos no mundo das palavras, da comunicação e do significado.

A razão pela qual isso acontece tem a ver com a batalha da Torá contra a idolatria. Outros viram deuses no sol, nas estrelas, no rio, no mar, na chuva, na tempestade, no reino animal e na terra.

Eles fizeram representações visuais dessas coisas. Mas o Eterno proíbe toda essa mentalidade.

D’us não está na natureza, Ele está além dela. Ele a criou e a transcende.

Salmos 8:3-6 Quando vejo os teus céus, obra dos teus dedos, a lua e as estrelas que preparaste;Que é o homem mortal para que te lembres dele? e o filho do homem, para que o visites?Pois pouco menor o fizeste do que os anjos, e de glória e de honra o coroaste.
Fazes com que ele tenha domínio sobre as obras das tuas mãos; tudo puseste debaixo de seus pés:

A vastidão do espaço é para o salmista não mais do que “o trabalho dos seus dedos”. A natureza é obra de D’us, mas não é D’us.

Ele se revela principalmente nas palavras. No Monte Sinai, disse Moisés:

Deuteronômio 4:12 Então o Senhor vos falou do meio do fogo; a voz das palavras ouvistes; porém, além da voz, não vistes figura alguma.

Elias, em sua grande experiência na montanha, descobriu que D’us não estava no vento, no terremoto ou no fogo, mas na “voz mansa e delicada”.

Claramente, o Mishkan (o Tabernáculo), e mais tarde o Mikdash (o Templo), eram exceções. A ênfase deles estava no visual, como por exemplo nas vestes dos sacerdotes.

No hebraico “vestuário”, הַלְבָּשָׁה hal’bashah, também pode significar “traição”,  בְּגִידָה  b’giydah como na confissão que fazemos nos dias de Yom Kipur.

Em Gênesis, sempre que uma peça de roupa é um elemento-chave na história, ela envolve algum engano ou traição.

Lembram das folhas de figo que Adão e Eva fizeram para si depois de comerem o fruto proibido?

Jacó usava as roupas de Esaú quando ele recebeu sua bênção por engano.

Tamar usava as roupas de uma prostituta para enganar Judá e se deitar com ele.

Os irmãos usaram a capa manchada de sangue de Joseph para enganar o pai, pensando que ele havia sido morto por um animal selvagem.

A esposa de Potifar usou a capa que Jose havia deixado para trás como evidência de sua falsa alegação de que ele havia tentado estuprá-la.

O próprio Jose aproveitou as roupas egípcias para ocultar sua identidade de seus irmãos quando eles vieram ao Egito comprar comida.

Portanto, é excepcionalmente incomum que a Torá agora se preocupe com roupas e vestimentas.

Roupas têm a ver com a superfície, não com a profundidade; com o exterior, não o interior; com aparência e não com realidade.

Ainda mais estranho, que eles constituam como um elemento-chave do serviço dos sacerdotes, como diz:

1 Samuel 16:7 Porém o Senhor disse a Samuel: Não atentes para a sua aparência, nem para a grandeza da sua estatura, porque o tenho rejeitado; porque o Senhor não vê como vê o homem, pois o homem vê o que está diante dos olhos, porém o Senhor olha para o coração.

Igualmente estranho é o fato de que, pela primeira vez, encontramos o conceito de uniforme, isto é, uma forma padronizada de vestir usada por causa do cargo que ocupa, como Cohen ou Cohen Gadol.

Em geral, se concentravam na pessoa, não no cargo. Não havia uniforme para os Profetas.

Em Tetzaveh também é a primeira vez que encontramos a frase “para glória e esplendor”, descrevendo o efeito das roupas.

Êxodo 28:2  E farás vestes sagradas a Arão teu irmão, para glória e esplendor.

Até agora, kavod, כָּבוֹד“glória”, foi mencionado em relação somente a D’us. Agora, os seres humanos devem compartilhar parte da mesma glória?

Nossa Parashát também é a primeira vez que a palavra tiferet תִּפְאֶרֶת  aparece. A palavra tem o senso de esplendor e magnificência, mas também significa beleza.

Introduz uma dimensão que não encontrávamos explicitamente na Torá antes: a estética.

Encontramos a beleza física: Sarah, Rivka e Rachel são todas descritas como belas. Mas o Santuário e seu serviço nos levam pela primeira vez à beleza estética e visual.

Conforme dito em  Gênesis 22:14: “Avraham nomeou o lugar ‘D’us verá’. É por isso que é dito hoje: ‘No monte de D’us, Ele será visto ‘”. A ênfase no visual é inconfundível.

Da mesma forma, uma conhecida oração de Yom Kipur (Mareih Cohen) fala sobre, “a aparência do Sumo Sacerdote” nos dias mais sagrados:

Como a imagem de um arco de D’us aparecendo no meio das nuvens …

Como uma rosa no coração de um jardim encantador …

Como uma lâmpada piscando entre as venezianas da janela …

Como uma sala cheia de céu azul e roxo real …

Como um lírio de jardim que penetra no mato …

Como o aparecimento de Órion e Plêiades, visto no sul…

Isso levou ao refrão: “Quão afortunados foram os olhos que viram tudo isso”.

Por que, especificamente, em relação ao Tabernáculo e ao Templo, o visual prevaleceu?

A resposta está profundamente ligada ao bezerro de ouro. O que esse pecado mostrou é que as pessoas não conseguiam se relacionar completamente com um D’us que não lhes dava nenhum sinal permanente e visível de Sua presença e que só podia ser acessado pelo maior dos Profetas.

A Torá foi dada a seres humanos comuns, não a anjos ou indivíduos impares como Moisés. É difícil acreditar em um D’us que está em todo lugar, mas não está em um lugar particular.

É difícil sustentar um relacionamento com D’us que só é evidente em milagres e eventos únicos, mas não na vida cotidiana.

É difícil se relacionar com D’us quando Ele apenas se manifesta com seu poder sobrenatural.

Assim, o Mishkan se tornou o sinal visível da presença contínua de D’us no meio do povo. Aqueles sacerdotes que oficiaram lá não o fizeram para sua grandeza pessoal, mas para refletir a grandeza de D’us sinalizada por suas vestes.

O Mishkan representa o reconhecimento do fato de que a espiritualidade humana possui emoções, não apenas intelecto; possui coração, não apenas mente.

Daí a estética e o visual como uma maneira de incutir sentimentos de admiração. É assim que Maimonides coloca no Guia para os Perplexos:

A fim de elevar a estima do Templo, aqueles que ministraram nele receberam grande honra; e os sacerdotes e levitas foram, portanto, distinguidos dos demais.

Foi ordenado que os sacerdotes fossem vestidos adequadamente com belas e boas vestes, “vestes sagradas para a glória e para o esplendor” (Ex. 28. 2).

O templo deveria ser realizado com grande reverência por todos.

As vestes dos sacerdotes e do próprio Santuário deveriam ter a glória e o esplendor que induziam a admiração.

O objetivo da ênfase nos elementos visuais dos Mishkan e nas grandes vestimentas daqueles que lá ministravam era criar uma atmosfera de reverência, porque apontavam para uma beleza e esplendor além de si mesmos, o próprio D’us.

Maimonides entendeu o poder emotivo do visual. Em seus Oito Capítulos, de seus comentários sobre o tratado Avot, ele diz: “A alma precisa descansar e fazer o que relaxa os sentidos, como olhar belas paisagens e objetos, para que o cansaço seja removido”. Arte e beleza podem aliviar a depressão e energizar os sentidos.

O objetivo era trazer a experiência com D’us para a terra com rotinas regulares realizadas por seres humanos comuns.

Seu objetivo era fazer as pessoas sentirem a presença Divina invisível nos fenômenos visíveis.

Acredito que a beleza tem um poder, e o judaísmo sempre teve um propósito espiritual: conscientizar-nos do universo como uma obra de arte, testemunhando o artista supremo, o próprio D’us.

Há vidas que são lições. O falecido Henry Knobil’s era um deles. Ele nasceu em Viena em 1932.

Seu pai havia chegado lá na década de 1920 para escapar da crescente onda de anti-semitismo na Polônia.

Mas assim como Jacob fugindo de Esaú chegou em Labão, ele descobriu que havia fugido de um perigo apenas para chegar a outro.

Depois da  Austria ser anexada a Alemanha e da noite dos Cristais, ficou claro que, para a família sobreviver, eles precisavam sair dali.

Eles chegaram à Grã-Bretanha em 1939, apenas algumas semanas antes de seu destino ser selado se tivessem ficado. Henry cresceu em Nottingham, UK.

Lá, ele estudou têxteis e depois de seu serviço militar foi trabalhar para uma das grandes empresas britânicas, acabou iniciando seu próprio negócio têxtil de grande sucesso.

Ele era um judeu apaixonado pelo judaísmo. Ele e sua esposa Renata eram um casal modelo, ativo na vida da sinagoga, sempre levando convidados para sua casa no Shabat ou nas festas.

Ele acreditava que deveria retribuir à comunidade, não apenas em dinheiro, mas também em tempo, energia e liderança.

Ele se tornou o presidente de muitas organizações judaicas, incluindo a Câmara de Comércio Britânico-Israel e a Sinagoga do Arco de Mármore.

Ele adorava aprender e ensinar a Torá. Ele era um bom contador de histórias, com um suprimento infinito de piadas, e usava regularmente seu humor para levar a “terapia do riso” a pacientes com câncer, sobreviventes do Holocausto e moradores locais.

Abençoado com três filhos e muitos netos, ele se aposentou e esperava, com Renata, um capítulo sereno no final de uma vida longa e boa.

Então, sete anos atrás, ele voltou do serviço matinal na sinagoga e descobriu que Renata havia sofrido um derrame devastador.

Por um tempo, sua vida ficou na balança. Ela sobreviveu, mas a vida inteira agora tinha que mudar. Eles deixaram seu magnífico apartamento no centro da cidade para um lugar com acesso mais fácil para cadeiras de rodas.

Henry se tornou o cuidador constante e o suporte da vida de Renata. Ele estava com ela dia e noite, atento a todas as suas necessidades.

A transformação foi surpreendente. Antes, ele era um homem de negócios de força de vontade e líder comunitário. Agora ele se tornou um enfermeiro, irradiando gentileza e preocupação.

Seu amor por Renata e o dela por ele era algo divino. E embora ele pudesse, como Jó, invadir os portões do céu para saber por que isso havia acontecido com eles, ele fez o contrário.

Ele agradecia a D’us diariamente por todas as bênçãos que tinham desfrutado. Ele nunca murmurou, e nunca vacilou em sua fé.

Então, há um ano, ele foi diagnosticado com uma condição inoperável. Ele tinha, e sabia que tinha, pouco tempo para viver. O que ele fez então foi um supremo ato de bondade.

Ele procurou uma coisa: receber a graça de viver tanto quanto Renata, para que ela nunca estivesse sozinha. Há três meses, Renata morreu.

Uma semana depois, Henry se juntou a ela. Escreveram nos túmulos: “Amados e agradáveis ​​em suas vidas e em sua morte indivisa.” Raramente se vê tanto amor por quem passa uma adversidade.

Henry nos ensinou sobre o poder da fé para transformar a dor em amor, bondade e amor.

A fé estava no coração do que ele defendia. Ele acreditava que D’us o havia poupado de Hitler com um propósito.

Ele também deu sucesso comercial a Henry com um propósito. Nunca se ouviu atribuir nenhuma de suas realizações a si mesmo.

Por tudo o que correu bem, ele agradeceu a D’us.

Para o que não deu certo, a pergunta que ele fez foi simplesmente: o que D’us quer que eu aprenda com isso?

O que, agora que isso aconteceu, Ele quer que eu faça?

Essa mentalidade o levou pelos bons caminhos da humildade. Isso o levou através dos anos dolorosos a aprender a agir com coragem e fé.

Nossa Parashat começa com as palavras: “Ordene aos israelitas que lhe tragam azeite claro, esmagado para a luz, para que a lâmpada sempre se acenda” (Êx 27:20).

Os sábios fizeram uma comparação entre a oliveira e o povo judeu. “O rabino Joshua ben Levi perguntou: por que Israel é comparado a uma azeitona?

Assim como uma azeitona é primeiro amarga e depois doce, Israel sofre no presente, mas muito bem armazenado está para eles o futuro.

E, assim como a azeitona só produz seu óleo sendo esmagada – como está escrito, ‘azeite claro, esmagado para a luz’ -, Israel só cumpre todo o seu potencial na Torá quando é esmagada pelo sofrimento.

O óleo era, naturalmente, para a menorá, cuja luz era perpétua – primeiro no Santuário, depois no Templo, e agora que não temos o templo, é a luz que brilha em todo lugar santo,

Simboliza a Luz divina que inunda o universo para aqueles que o vêem através dos olhos da fé.

Para produzir essa luz, algo precisa ser esmagado. E aqui reside a lição de mudança de vida.

Sofrer é ruim. Nós não tentamos esconder esse fato. O Talmud faz um relato de vários sábios que adoeceram. Quando perguntado: “Seus sofrimentos são preciosos para você?” eles responderam: “Nem eles nem a sua recompensa.”  

Podemos praticar o atributo da (gevurah), força na adversidade. Mas há também uma terceira possibilidade.

Podemos responder como Henry respondeu, com compaixão, com bondade e com amor. Podemos nos tornar como a azeitona que, quando esmagada, produz o óleo puro que alimenta a luz perpetua.

Quando coisas ruins acontecem a pessoas boas, nossa fé é desafiada. Essa é uma resposta natural, não herética. (Heresia).

Abraão perguntou: “O juiz de toda a terra não fará justiça?”

Moisés perguntou: “Por que você fez mal a este povo?”

No entanto, a pergunta errada a fazer é: “Por que isso aconteceu?”

Talvez nós nunca saberemos. Nós não somos D’us, nem devemos almejar a ser. A pergunta certa é: “Dado que isso aconteceu, o que devo fazer?” O que devo aprender?

Para isso, a resposta não é um pensamento, mas uma ação.

É curar o que pode ser curado, medicamente no caso do corpo, psicologicamente no caso da mente, espiritualmente no caso da alma.

Nossa tarefa é trazer luz aos lugares sombrios da nossa vida e na de outras pessoas.

Foi isso que Henry fez. Renata sofreu. Ele também. Mas o espírito deles prevaleceu sobre o corpo. Esmagados, eles irradiavam luz.

Ninguém imagine que isso seja fácil. É preciso um supremo ato de fé. No entanto, é precisamente aqui que sentimos o poder da fé para mudar vidas.

Assim como a grande arte pode transformar dor em beleza, a fé também pode transformar dor em amor e luz Divina.

Shabbat Shalom!