O roubo das tradições

Beit HaDerekh

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O Roubo das tradições

Muitos se sentem desconfortáveis com tradições. 

Lembramos das várias vezes que Jesus recriminou os líderes de Israel por guardarem certas tradições de homens e não cumprir os verdadeiros mandamentos.

Acabamos por pensar que todas as tradições são ruins e só servem para deixar as pessoas presas em bobagens ao invés de se ligarem ao que é realmente importante.

Mas, tradição não é sinônimo de hipocrisia nem de atraso. Examinemos os versículos abaixo:

“Então, irmãos, estai firmes e retende as tradições que vos foram ensinadas, seja por palavra, seja por epístola nossa.”

(2 Ts 2:15)

“Ordenamo-vos, porém, irmãos, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo, que vos aparteis de todo o irmão que anda desordenadamente, e não segundo a tradição que de nós recebeu.”

(2 Ts 3:6)

“E aconteceu que, três dias depois, Paulo convocou os principais dos judeus, e, juntos eles, lhes disse: Homens irmãos, não havendo eu feito nada contra o povo, ou contra os ritos paternos, vim contudo preso desde Jerusalém, entregue nas mãos dos romanos;”

(At 28:17)

“E louvo-vos, irmãos, porque em tudo vos lembrais de mim, e retendes os tradições como vo-las entreguei.”

(1 Co 11:2)

Então, quer dizer que não é errado seguir tradições?

Não. Muitas tradições, na verdade, nos ajudam a cumprir um mandamento!

Uma ótima tradição judaica era o Batismo de João Batista, que visava cumprir os mandamentos da prática de banhos rituais para purificação ritual.

João Batista enfatizava o aspecto do arrependimento e a confissão de pecados, que devem ser concomitantes ao Batismo.

Os banhos rituais são um mandamento. Entretanto, a construção dos mikvaot (tanques batismais) eram uma tradição! Existem, na tradição judaica, documentos orientando a construção desses locais de batismo.

Para se ter uma ideia de como os mikvaot eram importantes, os arqueólogos determinam se uma região de Israel era habitada por pessoas ricas pelo fato delas possuírem esses tanques batismais em suas próprias residências. Se existem muitos mikvaot em determinado local, isso significa uma área de população rica.

Ninguém entrava no templo sem antes passar pelos mikvaot (tanques batismais).

Outra riqueza arqueológica que podemos encontrar hoje em Jerusalém, ao redor do Muro das Lamentações, é a variedade de tanques batismais. 

Acredita-se que Jesus havia endossado e depois estabelecido o batismo de João Batista. Mas, João Batista, mesmo antes de Jesus,  já estava seguindo a tradição dos Judeus. Isto nos mostra que o próprio Jesus confirmou uma tradição judaica.

Além da tradição dos batismos, podemos observar nos Escritos Apostólicos (NT), várias boas tradições, tais como:

1. Orar antes das refeições

 “Porque eu recebi do Senhor o que também vos entreguei: que o Senhor Jesus, na noite em que foi traído, tomou o pão;

e, tendo dado graças, o partiu e disse: Isto é o meu corpo, que é dado por vós; fazei isto em memória de mim.” (1 Co 11:23,24)

2.   Fazer o kidush depois das refeições, ou seja, após a refeição, tomar uma pequena taça de vinho e recitar uma palavra do Senhor antes de levar o cálice à boca, como vemos no relato abaixo:

Por semelhante modo, depois de haver ceado, tomou também o cálice, dizendo: Este cálice é a nova aliança no meu sangue; fazei isto, todas as vezes que o beberdes, em memória de mim.”
(1 Co 11:25)

3.  Cantar um salmo ao final de uma refeição completa 

E, tendo cantado um hino, saíram para o monte das Oliveiras.” (Mt 26:30)

4.   Orar três vezes ao dia .Tradição citada em Atos como: oração da hora nona.  A tradição prescrevia se fazer 3 orações ao dia, como Daniel fazia. Essas orações padronizadas eram recitadas na hora em que os sacrifícios diários eram feitos no Templo em Jerusalém. 

“Pedro e João subiam ao templo para a oração da hora nona.”
(At 3:1
)

5.   Culto de havdala , ou seja, culto de encerramento do Shabbat, seguido de refeição em comunidade ( Atos 20:7 e 20:11 )

 “No primeiro dia da semana, estando nós reunidos com o fim de partir o pão, Paulo, que devia seguir viagem no dia imediato, exortava-os e prolongou o discurso até à meia-noite.” (Atos 20:7)

6.   Leitura bíblica nas reuniões da Sinagoga nos Sábados 

“Indo para Nazaré, onde fora criado, entrou, num sábado, na sinagoga, segundo o seu costume, e levantou-se para ler.” (Lc 4:16)

7.   Lavar as mãos ritualisticamente. No exemplo abaixo, apesar de Jesus debater sobre essa tradição com os Fariseus, é importante observar que: Jesus lavou as mãos conforme a tradição, apesar de alguns discípulos não o terem feito. A discussão de Jesus estava em torno do valor excessivo que os fariseus estavam dando a essa tradição, entretanto, a tradição em si não era errada, tanto que Jesus a praticou. 

“Ora, reuniram-se a Jesus os fariseus e alguns escribas, vindos de Jerusalém.

E, vendo que alguns dos discípulos dele comiam pão com as mãos impuras, isto é, por lavar” (Mc 7:1,2)

Conclusão:

Quando lemos o Novo Testamento não nos damos conta das tradições acima citadas. 

O fato de termos recebido uma interpretação desses textos desconectada do seu significado original mostra, claramente, que ler a bíblia com as várias camadas de cultura ocidental encobrindo a verdade do contexto original é o mesmo que sermos roubados e nem nos darmos conta disso!