Como eram tratados os novos convertidos

Beit HaDerekh

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Como lidar com os interessados em aprender sobre a fé em  Yeshua, nosso Messias?

No primeiro século, o Judaísmo Nazareno estava recebendo vários novos convertidos. O crescente número de novatos ao Judaísmo Nazareno era originário de povos pagãos,  e teriam muito que aprender! Isso, poderia trazer problemas.

 Os que vinham do Judaísmo Farisaico, compartilhavam de uma história comum aos discípulos: eles tinham a seu favor anos de leitura bíblica, entretanto, eles também tinham recebido alguns conceitos falsos que estavam relacionados ao contexto da época.

Vamos aprender mais detalhadamente sobre esses falsos ensinos no capítulo sobre as 18 medidas de Shamai.

A história judaica é repleta de problemas que o povo judeu enfrentou quando muito próximo a povos pagãos. Não havia muito tempo, os Judeus haviam sofrido com o processo de Helenização, ou seja, de assimilação pela cultura dominante. Muitos ficaram fascinados pelo belo mundo grego, cheio de arte, competições atléticas, poesia e filosofia.

No início a dominação grega era mais “laissez faire”, ou seja, mais permissiva. Ptolomeu estava no poder e ele permitia a prática da Tora. O templo e as Sinagogas eram preservados. Ptolomeu inclusive quis que a Tora fosse traduzida para o Grego. Mas é claro que influência Grega seduzia o povo para longe do padrão divino.

Essa “harmonia” foi substituída por um ataque aberto contra os valores judaicos quando Seleuco passa a dominar. O irmão mais novo de Seleuco era Antíoco Ephifanias IV. Antíoco invadiu o templo, queimou os rolos da Torá, matou um porco no altar do Senhor profanando o templo e dedicou o local ao deus Zeus. Ele crucificou centenas de judeus apenas por eles estudarem a Tora. Antíoco proibiu a circuncisão e quis forçar a população judaica a sacrificar ao seu Deus.

Esse estado de coisas levou o povo a revolta e  levou a Guerra dos Macabeus. Em 164 a.C., após 3 anos de duras batalhas ,Judas o Macabeu, e seus homens conseguem tomar Jerusalém e reconquistar o templo. Eles retiram as idolatrias do templo e fizeram uma cerimônia para re-dedicar o Templo, no que ficaria conhecida como a Festa de Chanucá, ou seja, a Festa da Dedicação.

Uma onda de nacionalismo/avivamento toma conta do país. A festa de Chanucá passou a ser celebrada em memória dessa vitória.

Essa conquista não foi algo de menor importância na história judaica tanto que, na época de Jesus, celebrar essa data com uma festa memorial era algo muito importante. Jesus fez questão de estar em Jerusalém para celebrar essa importante festa. Os  leitores do Novo Testamento muitas vezes nem se dão conta de que essa festa é citada nominalmente no Novo Testamento! João relata:

 “Celebrava-se em Jerusalém a Festa da Dedicação. Era inverno.

Jesus passeava no templo, no Pórtico de Salomão.” João 10:22,23

Não muito tempo antes de Jesus, o Judaísmo havia sofrido um enorme golpe. A reação contra o processo de assimilação deu lugar ao sentimento nacionalista e ao zelo renovado pela Tora. Houveram circuncisões em massa de todas as crianças que não haviam sido circuncidadas durante o período da proibição. Essas circuncisões compulsórias foram muitas das vezes forçadas.

Dentro desse contexto, com esse pano de fundo no passado recente havia diferentes posições entre os Nazarenos sobre como lidar com os crentes novatos vindos do paganismo. Será que eles deveriam ser circuncidados rapidamente? Será que eles trariam seus maus costumes para dentro da comunidade?  Imaginem um grupo de pais hoje em dia conversando sobre o que fazer com um jovem recém vindo das drogas que entrasse no o grupo onde seus filhos frequentam. Talvez, essa seria uma boa comparação para tentarmos entender melhor a situação. Era natural surgirem perguntas e temores, afinal de contas, eram muitos os que estavam se achegando a família da fé ao mesmo tempo.

Tiago, o líder dos Nazarenos, foi consultado. Para Tiago o fato dos gentios se voltarem para Deus, era cumprimento das profecias do profeta Amós que disse:

“Cumpridas estas coisas, voltarei e reedificarei o tabernáculo caído de Davi; e, levantando-o de suas ruínas, restaurá-lo-ei.” (Amós 9:11/ Atos 15:16)

Entretanto, Tiago esclareceu que ele não endossava a circuncisão automática/forçada dos novos convertidos.

Tiago instrui que, os novos convertidos começassem a guardar algumas regras básicas para que passo a passo pudessem ir aprendendo. Eles frequentariam a sinagoga todos os Sábados e seriam instruídos : “Porque Moisés tem, em cada cidade, desde tempos antigos, os que o pregam nas sinagogas, onde é lido todos os sábados.” Atos 15:21.

Como ponto de partida, Tiago cita os princípios enumerados pelo profeta Ezequiel quase 600 anos antes (593 a 571 AC).

Ezequiel 33: 23 e 26 diz:

“Então a palavra de HaShem veio a mim, dizendo: Filho do homem, os que habitam aquelas ruínas na terra de Israel estão dizendo: Abraão era apenas um, e ele herdou a terra. Mas somos muitos; a terra nos foi dada como possessão.

Portanto, diga a eles: Assim diz o Senhor Deus:

Você come carne com sangue, levanta os olhos para os seus ídolos e derrama sangue (assassinato). Você deve possuir a terra? Você confia na sua espada, comete abominações e macula as esposas. Você deveria possuir a terra?”

Observe os pecados que Deus identifica:

1. Comer carne com sangue

2. Praticar da idolatria

3. Engajar em imoralidade sexual

4. Derramar sangue (assassinato)

Observação: Essa tal  “carne com sangue” do primeiro iten,

obviamente o problema não seria a carne mas a carne com sangue, isto é: não se trata de carne imunda, pois esse fato seria sério demais e certamente seria corrigido com vigor. O fato do animal ser abatido incorretamente já o desqualifica como alimento, imagine se fosse animal imundo! 

Observem como Deus se manifesta em relação ao consumo de animais imundos: Isaias 66: 15 A 17: “Porque eis que o Senhor virá em fogo, e os seus carros, como um torvelinho, para tornar a sua ira em furor e a sua repreensão, em chamas de fogo,

porque com fogo e com a sua espada entrará o Senhor em juízo com toda a carne; e serão muitos os mortos da parte do Senhor.

Os que se santificam e se purificam para entrarem nos jardins após a deusa que está no meio, que comem carne de porco, coisas abomináveis e rato serão consumidos, diz o Senhor.”

Continuando nossa analise sobre a resposta de Tiago, vemos que ele busca em dois profetas do Velho Testamento a orientação para os gentios convertidos.

Refletindo Ezequiel, Tiago diz:

 “Pelo que, julgo eu, não devemos perturbar aqueles que, dentre os gentios, se convertem a Deus,

mas escrever-lhes que se abstenham das contaminações dos ídolos, bem como das relações sexuais ilícitas, da carne de animais sufocados e do sangue.

Porque Moisés tem, em cada cidade, desde tempos antigos, os que o pregam nas sinagogas, onde é lido todos os sábados.”

Atos 15:19-21

Observem a coincidência! Os mesmos quatro princípios de Ezequiel são os mesmos que Tiago destaca:

1. Comer carne com sangue

2. Praticar da idolatria

3. Engajar em imoralidade sexual

4. Derramar sangue (assassinato)

Que interessante, os mesmos princípios do Velho Testamento são repetidos no Novo Testamento. Na verdade, o Velho Testamento está “escondido” no Novo Testamento.

Os apóstolos não estavam limitando os gentios a quatro éditos específicos e estreitos. Eles estavam de fato fornecendo o ponto de partida. Moisés teve por muitas gerações aqueles que o ensinavam em todas as cidades, a Torah era lida nas sinagogas todos os sábados. Os novos convertidos tinham muito que aprender.

Importante observar que Ezequiel dirige sua repreensão aos filhos de Israel, enquanto Tiago dirige sua orientação aos gentios. O que isso nos mostra? Mostra, que desde o início o padrão de conduta  que Deus estabelece para o estrangeiro (gentio) e para o natural da terra sempre é o mesmo!

Amos quando fala da restauração do tabernáculo caído de Davi, não está se referindo aos gentios, mas aos Filhos de Israel. Porém Tiago cita as palavras de Amós, se referindo a conversão dos gentios! As palavras dadas aos judeus, ao povo original, era estendida indiscriminadamente a todos que desejavam se apegar a Deus independente da sua origem.

Vejamos o que está escrito no profeta Isaías: 

3 Não fale o estrangeiro que se houver chegado ao Senhor, dizendo: O Senhor, com efeito, me separará do seu povo; nem tampouco diga o eunuco: Eis que eu sou uma árvore seca.

4 Porque assim diz o Senhor: Aos eunucos que guardam os meus sábados, escolhem aquilo que me agrada e abraçam a minha aliança,

5 darei na minha casa e dentro dos meus muros, um memorial e um nome melhor do que filhos e filhas; um nome eterno darei a cada um deles, que nunca se apagará.

6 Aos estrangeiros que se chegam ao Senhor, para o servirem e para amarem o nome do Senhor, sendo deste modo servos seus, sim, todos os que guardam o sábado, não o profanando, e abraçam a minha aliança,

7 também os levarei ao meu santo monte e os alegrarei na minha Casa de Oração; os seus holocaustos e os seus sacrifícios serão aceitos no meu altar, porque a minha casa será chamada Casa de Oração para todos os povos.”

Nesse mesmo espírito, que Paulo diz: 

“Pois todos vós sois filhos de Deus mediante a fé em Cristo Jesus;

porque todos quantos fostes batizados em Cristo de Cristo vos revestistes.

Dessarte, não pode haver judeu nem grego; nem escravo nem liberto; nem homem nem mulher; porque todos vós sois um em Cristo Jesus.

E, se sois de Cristo, também sois descendentes de Abraão e herdeiros segundo a promessa. Gálatas 3:26-29

Concluindo:
Os apóstolos estavam fornecendo um método para incluir os gentios na prática da comunidade dos crentes Nazarenos. Esses quatro princípios eram apenas um ponto de partida, em seguida eles poderiam aprender graciosamente os mandamentos de HaShem. Esta é a abordagem de um pai para um filho adotado. A criança natural já aprendeu as regras da casa. A criança adotada tem a oportunidade de aprendê-las. Pergunte a qualquer pai que tenha filhos adotivos e naturais e eles lhe dirão que, no final, um pai justo e sábio garantirá que todos os filhos sejam mantidos no mesmo padrão.